quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Narrar-se


“Sou fã de psicanálise, de livros de psicanálise, de filmes sobre psicanálise e não pretendo desgrudar o olho da nova série do GNT, Sessão de Terapia, dirigida por Selton Mello. Algum voyeurismo nisso? Total. Quem não gostaria de ter acesso ao raio-x emocional dos outros? Somos todos bem resolvidos na hora de falar sobre nós mesmos num bar, num almoço em família, até escrevendo crônicas. Mas, em colóquio secreto e confidencial com um terapeuta, nossas fraquezas é que protagonizam a conversa.
Por 50 minutos, despejamos nossas dúvidas, traumas, desejos, sem temer passar por egocêntricos. É a hora de abrir-se profundamente para uma pessoa que não está ali para condenar ou absolver, e sim para estimular que você escute atentamente a si mesmo e assim consiga exorcizar seus fantasmas e viver de forma mais desestressada. Alguns pacientes desaparecem do consultório logo após o início das sessões não estão preparados para esse enfrentamento.
Outros levam anos até receber alta. E há os que nem quando recebem vão embora, tal é o prazer de se autoconhecer, um processo que não termina nunca. Desconfio que será o meu caso. Minha psicanalista um dia terá que correr comigo e colocar um rottweiler na recepção para impedir que eu volte. Já estou bolando umas neuroses bem cabeludas para o caso de ela tentar me dispensar.
Analisar-se é aprender a narrar a si mesmo. Parece fácil, mas muitas pessoas não conseguem falar de si, não sabem dizer o que sentem. Para mim não é tão difícil, já que escrever ajuda muito no exercício de expor-se. Quem escreve está sempre se delatando, seja de forma direta ou camuflada. E como temos inquietações parecidas, os leitores se identificam: “Parece que você lê meus pensamentos”. Não raro, eles levam textos de seus autores preferidos para as consultas com o analista, a fim de que aqueles escritos ajudem a elaborar sua própria narrativa.
Meus pensamentos também são provocados por diversos outros escritores, e ainda por músicos, jornalistas, cineastas. Esse intercâmbio de palavras e sentimentos ajuda de maneira significativa na nossa própria narração interna. Escutando o outro, lendo o outro, se emocionando com o outro, vamos escrevendo vários capítulos da nossa própria história e tornando-nos cada vez mais íntimos do personagem principal – você sabe quem.
Selton Mello, em entrevista, disse que para algumas pessoas o programa pode parecer chato, pois é todo baseado no diálogo entre terapeuta e paciente, e isso é algo incomum na televisão, que vive de muita ação e gritaria. De minha parte, terá audiência cativa até o último episódio, pois, mesmo não vivenciando os problemas específicos que a série apresenta, todos nós aprendemos com os dramas que acontecem na porta ao lado, é um bem-vindo convite a valorizar o humano que há em cada um. A introspecção não costuma atingir muitos pontos no ibope, mas é a partir dela que se constrói uma vida que merece ser contada.”
Texto de Martha Medeiros escrito em 07 de outubro de 2012 para a Revista O Globo,  coluna Ela Disse. oglobo.globo.com

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

10 maneiras de inibir o desenvolvimento do seu filho

Você não pode deixar de ler.


Se o elefante soubesse a força que tem, seria o dono do circo, afirma o dito popular. Costumo dizer que filhos são diferentes, eles, em algum momento, descobrem a sua força. Alguns se tornam donos do circo familiar, outros, mais competentes, fundam o seu próprio. Isso é um perigo, devemos inibir estes arroubos de autonomia e independência. Os primeiros sinais deste distúrbio ocorrem quando facilmente eles conseguem dormir na casa dos avós, tias e amiguinhos sem maiores problemas. A reação no primeiro dia de escola é outro indicador importante, quando dão tchau e não olham mais para trás, geralmente é porque atingiram um perigoso grau de autonomia.
Descreverei algumas medidas úteis para inibir o desenvolvimento e a conquista de autonomia dos filhos e assim mantendo-os permanentemente dependentes.
  1. Compare-os, compare-os sempre. Com os irmãos, com os primos, com os vizinhos. Assim inibe-se que eles olhem para os seus interesses e suas habilidades. De preferência apontando habilidades que os outros têm e eles não. Compare seu filho introspectivo e estudioso com o primo desinibido e atlético. A filha gordinha com a amiga magrela.
  2. Quando ele mostrar-se contente com uma conquista, mostre o elemento faltante. Se ele tirou 9,5, pergunte se alguém tirou 10, ou o que faltou para tirar 10, já que ele só faz isso. Se ele se saiu muito bem em português, pergunte sobre a nota de matemática, sempre acentuando a importância da disciplina que ele tirou a menor nota.
  3. Mostre-se extremamente disponível para ajuda-lo, de preferência faça as coisas por ele, se resultado for bom, acentue que isso ocorreu porque você ajudou-o, se não for bem, mostre o quão relapso ele foi, tendo deixado para fazer na última hora.
  4. Fale dos perigos da vida, utilize todos os exemplos trágicos e associe o desfecho a algum tipo de desobediência/desconsideração com os pais.
  5. Inocule culpa, esta é uma arma poderosa. Fale dos sacrifícios para dar o que ele pede, comente que você nunca teve nada disso e sempre foi obediente. Enquanto ele parece não dar importância ao que lhe é orientado. Em caso de urgência, evoque o mandamento bíblico: “respeite o teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na face da terra”. Isso mobiliza temores atávicos.
  6. Na puberdade\adolescência moralize qualquer indício de desinibição sexual, por outro lado, se te parecer que o comportamento está muito inibido cobre desempenho. Aqui a comparação também é fundamental.
  7.  A escolha profissional é um momento importante. Se a escolha não recair sobre algo clássico, seja direto: vais morrer de fome. Alguns pais que são médicos ou das carreiras jurídicas tendem a inatamente terem a habilidade de mostrar o quão perigoso é uma escolha que não recaía sobre a segurança das suas áreas. Mostre tudo que eles perderão abrindo mão da influência dos pais.
  8. Tente sempre utilizar a sua influência para viabilizar as conquistas dos filhos. De forma que fique claro, que o emprego ele conquistou por pedido do pai, a nomeação foi por influência do amigo etc. Se no caminho tiver algo de ilícito, melhor, esse fato acompanhará o filho sempre, nada mais inibidor de autonomia.
  9. Se perceberes que o filho esta prestes a conquistar algo que almeja, como, por exemplo, a compra de um bem, se puderes, antecipe-se e dê para ele, se não puder dar tudo, contribua de alguma forma, assim ele não ganha a autoconfiança de achar que pode conquistar as suas coisas.
  10. Sempre o previna sobre tudo que pode não dar certo, é infalível, como sempre algo não dará certo, lembre-o que você avisou. Em qualquer idade, avise que se ele fizer algo que tu não aprovas que ele não conte contigo.
Todas estas orientações podem ser usadas com cônjuges, afilhados políticos, pupilos acadêmicos, funcionários, precisa-se apenas de pequenas adaptações.
Brincadeira à parte, todos os pais, em algum momento podem ter alguma atitude listada, eu já me vi em quase todas, de maneira mais ou menos sútil. É o aspecto repetitivo e constante que acaba por contribuir para inibição e dependência dos filhos. Todos os pais têm seus núcleos de dependência e, assim, podem atuá-los de forma inconsciente. Seja porque eles têm medo da autonomia, seja por rivalidade com os filhos ou porque as suas dependências se manifestam através da necessidade de terem alguém dependente deles.

Abraços,
Marcela

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Cardápio da Alma

Também utilizamos esse texto da Martha Medeiros na nossa vivência. Será que estamos com a alma subnutrida? Como estamos nos alimentando espiritualmente? Diz aí...




Cardápio da Alma
Arroz, feijão, bife, ovo. Isso nós temos no prato, é a fonte de energia que nos faz levantar de manhã e sair para trabalhar. Nossa meta primeira é a sobrevivência do corpo. Mas como anda a dieta da alma?

Outro dia, no meio da tarde, senti uma fome me revirando por dentro. Uma fome que me deixou melancólica. Me dei conta de que estava indo pouco ao cinema, conversando pouco com as pessoas, e senti uma abstinência de viajar que me deixou até meio tonta. Minha geladeira, afortunadamente, está cheia, e ando até um pouco acima do meu peso ideal, mas me senti desnutrida. Você já se sentiu assim também, precisando se alimentar?

Revista, jornal, internet, isso tudo nos informa, nos situa no mundo, mas não sacia. A informação entra dentro da casa da gente em doses cavalares e nos encontra passivos, a gente apenas seleciona o que nos interessa e despreza o resto, e nem levantamos da cadeira neste processo. Para alimentar a alma, é obrigatório sair de casa. Sair à caça. Perseguir.

Se não há silêncio a sua volta, cace o silêncio onde ele se esconde, pegue uma estradinha de terra batida, visite um sítio, uma cachoeira, ou vá para a beira da praia, o litoral é bonito nesta época, tem uma luz diferente, o mar parece maior, há menos gente.

Cace o afeto, procure quem você gosta de verdade, tire férias de rancores e mágoas, abrace forte, sorria, permita que lhe cacem também.

Cace a liberdade que anda tão rara, liberdade de pensamento, de atitudes, vá ao encontro de tudo que não tem regras, patrulha, horários. Cace o amanhã, o novo, o que ainda não foi contaminado por críticas, modismos, conceitos, vá atrás do que é surpreendente, o que se expande na sua frente, o que lhe provoca prazer de olhar, sentir, sorver. Entre numa galeria de arte. Vá assistir a um filme de um diretor que não conhece. Olhe para sua cidade com olhos de estrangeiro, como se você fosse um turista. Abra portas. E páginas.

Arroz, feijão, bife, ovo. Isso me mantém de pé, mas não acaba com meu cansaço diante de uma vida que, se eu me descuido, torna-se repetitiva, monótona, entediante. Mas nada de descuido. Vou me entupir de calorias na alma. Há fartas sugestões no cardápio. Quero engordar no lugar certo. O ritmo dos dias é tão intenso que às vezes a gente esquece de se alimentar direito.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Que vazio é esse em sua vida?

Achei esse texto de uma enorme sabedoria. Ele é longo, mas vale a pena. Foi publicado por Patrícia Gebrim, psicóloga
Utilizamos ontem, na vivência "Tá com fome de quê?"





"Quantas vezes eu ouço as pessoas falarem sobre esse tal “vazio”. Como se existisse um espaço mal-assombrado dentro de cada ser humano, um lugar dentro do qual todas as pessoas, em algum momento de suas vidas, acabassem caindo, para não mais sair de lá.

Que vazio é esse afinal??? E o que fazer com ele???

Na dúvida, acabamos achando que esse buraco é sinal de algum defeito, e que devemos preenchê-lo o mais rapidamente possível. Perceba quantas “besteiras” acabamos fazendo na tentativa de preencher esse espaço que tanto nos assusta.

Nos envolvemos em relacionamentos com pessoas com as quais não temos nenhuma afinidade, estouramos nosso cartão de crédito, compramos todo tipo de coisas das quais não precisamos, comemos mais do que necessitamos, bebemos mais do que seria saudável, aceitamos ir a lugares aos quais na verdade não gostaríamos de ir, convivemos com pessoas que sugam toda a nossa energia, andamos para lá e para cá como baratas tontas, tudo com a intenção de preencher o vazio.

E mais... traímos a nossa verdade, nos sentimos “defeituosos” (pessoas perfeitas não teriam um buraco lá dentro!), sentimos vergonha de nós mesmos, criamos falsas máscaras para fingir que não somos ocos, fugimos desesperadamente e nos envolvemos em todo tipo de atividade frenética para não nos lembrar que ele continua lá, quieto, imenso... um buraco enorme na nossa auto-estima.

Fazemos tudo isso para evitar o vazio... mas sabe o que é pior?... nada disso funciona!

Agora ouça, é sério:

- Não há nada de errado em você sentir esse vazio aí dentro... não há nada de errado ao sentir-se incompleto, com essa sensação de que “falta algo”.

- É claro que falta algo!

- Sempre irá faltar!

Existe algo maior, mais belo, que cada um de nós veio aqui para realizar. Entenda... por maior não quero dizer aquele tipo de grandeza que é acessivel apenas a alguns. Falo de algo a que todos nós temos acesso, falo daquela grandeza de alma que nos torna verdadeiramente humanos, capazes de criar, capazes de amar... Pois eu acredito que o vazio exista para nos lembrar exatamente disso!

E se eu lhe disser que devemos tudo o que existe de belo no mundo à existência desse vazio?

E se fosse mais ou menos assim...

Um dia um Monet acorda e sente um buraco bem no meio da sua barriga, ou talvez no meio do peito (o vazio às vezes gosta de mudar de lugar dentro de nós)... sente-se mal com o tal buraco... pega seus pincéis e, no branco vazio de uma tela, pinta os mais belos jardins.

Outro dia um Villa Lobos acorda incomodado, sente algo estranho, como se fosse uma fome por dentro, uma coisa que aperta seu peito, esmaga seu coração solitário... e, no vazio do silêncio, compõe a mais bela bachiana... (ah, você já ouviu a Bachiana no 5 do Villa Lobos?)

Um dia um cientista é acordado por um buraco bem no meio da sua cabeça... tantas coisas sem explicação no mundo o angustiam e tiram seu sono... e no silencioso vazio de respostas brota, quase miraculosamente em sua mente, uma solução para uma doença que aflige toda a humanidade.

Outro dia uma dona de casa qualquer, em uma casa qualquer, acorda e olha ao redor... os filhos já se foram, o marido está trabalhando... Na solidão de sua vida decide cozinhar e assa o mais delicioso bolo que uma mulher já foi capaz de fazer. E no vazio daquela casa surge um aroma que a transforma imediatamente em um lar; quente, acolhedor, cheio de amor.

Assim, acreditem, não há como nos livrarmos desse tal vazio (ainda bem), mas podemos “escolher” o que fazer com ele.

Podemos transformá-lo em um mar de lamentações, e navegar por ele por toda uma vida, como se fôssemos um navio fantasma rangendo nossas ferragens por aí.

Mas podemos também...

...criar!

Essa é a palavra-chave para transformar o vazio que existe dentro de nós no espaço mais sagrado que um dia seremos capazes de adentrar.

E é no vazio da terra que uma semente pode brotar, no vazio na mente que o inusitado pode se libertar, no vazio de saber que a real sabedoria encontra espaço, no vazio de crenças que ganhamos a liberdade de escolher no que acreditar!

O vazio nos torna livres... pensem nisso!

Veja, Lao Tse , em 99 a.C., já sabia disso, veja o que diz seu tratado, o Tao Te King:

“Trinta raios convergentes, unidos ao meio, formam a roda, mas é seu vazio central que move o carro.

O vaso é feito de argila, mas é o seu vazio que o torna útil.

Abre-se portas e janelas nas paredes de uma casa, mas é seu vazio que a torna habitável.”

Assim... não tema o vazio, talvez ele seja o maior presente que recebemos. A verdade é que sem o vazio seríamos tristes caricaturas de quem de verdade podemos ser. Seja corajoso. Aceite-o e permita que ele lhe inspire a tornar-se quem você de verdade é.

O que seria de uma vida sem o mistério... sem a noite... sem as estrelas?

É no vazio que mora a nossa musa,

e as mais belas idéias,

e os sonhos,

e a poesia...

Aceite o vazio e... se puder... ame-o.

O que vai acontecer então?...

Não vou lhe dizer!

Descubra por si mesmo..."

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A fábula do porco-espinho



Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio. 
Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram se juntar em grupos, assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente, mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor. 
Por isso decidiram se afastar uns dos outros e começaram de novo a morrer congelados. 
Então precisaram fazer uma escolha: ou desapareciam da Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros. 
Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos. 
Aprenderam assim a conviver com as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro. 
E assim sobreviveram.