quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Filhos são do mundo



Devemos criar os filhos para o mundo. Torná-los autônomos, libertos, até de nossas ordens. A partir de certa idade, só valem conselhos.

Especialistas ensinaram-nos a acreditar que só esta postura torna adulto aquele bebê que um dia levamos na barriga.

E a maioria de nós pais acredita e tenta fazer isso. O que não nos impede de sofrer quando fazem escolhas diferentes daquelas que gostaríamos ou quando eles próprios sofrem pelas escolhas que recomendamos.

Então, filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo!

Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.

Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo!
Então, de quem são nossos filhos? Eu acredito que são de Deus, mas com respeito aos ateus digamos que são deles próprios, donos de suas vidas, porém, um tempo precisaram ser dependentes dos pais para crescerem, biológica, sociológica, psicológica e emocionalmente.

E o meu sentimento, a minha dedicação, o meu investimento? Não deveriam retornar em sorrisos, orgulho, netos e amparo na velhice?
Pensar assim é entender os filhos como nossos e eles, não se esqueçam, são domundo!

Volto para casa ao fim do plantão,início de férias, mais tempo para os fllhos, olho meus pequenos pimpolhos e penso como seria bom se não fossem apenas empréstimo! Mas é. Eles são do mundo. O problema é que meu coração já é deles. Santo anjo do Senhor...

É a mais concreta realidade. Só resta a nós, mães e pais, rezar e aproveitar todos os momentos possíveis ao lado das nossas 'crias', que mesmo sendo 'emprestadas' são a maior parte de nós !!!

José Saramago

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Narrar-se


“Sou fã de psicanálise, de livros de psicanálise, de filmes sobre psicanálise e não pretendo desgrudar o olho da nova série do GNT, Sessão de Terapia, dirigida por Selton Mello. Algum voyeurismo nisso? Total. Quem não gostaria de ter acesso ao raio-x emocional dos outros? Somos todos bem resolvidos na hora de falar sobre nós mesmos num bar, num almoço em família, até escrevendo crônicas. Mas, em colóquio secreto e confidencial com um terapeuta, nossas fraquezas é que protagonizam a conversa.
Por 50 minutos, despejamos nossas dúvidas, traumas, desejos, sem temer passar por egocêntricos. É a hora de abrir-se profundamente para uma pessoa que não está ali para condenar ou absolver, e sim para estimular que você escute atentamente a si mesmo e assim consiga exorcizar seus fantasmas e viver de forma mais desestressada. Alguns pacientes desaparecem do consultório logo após o início das sessões não estão preparados para esse enfrentamento.
Outros levam anos até receber alta. E há os que nem quando recebem vão embora, tal é o prazer de se autoconhecer, um processo que não termina nunca. Desconfio que será o meu caso. Minha psicanalista um dia terá que correr comigo e colocar um rottweiler na recepção para impedir que eu volte. Já estou bolando umas neuroses bem cabeludas para o caso de ela tentar me dispensar.
Analisar-se é aprender a narrar a si mesmo. Parece fácil, mas muitas pessoas não conseguem falar de si, não sabem dizer o que sentem. Para mim não é tão difícil, já que escrever ajuda muito no exercício de expor-se. Quem escreve está sempre se delatando, seja de forma direta ou camuflada. E como temos inquietações parecidas, os leitores se identificam: “Parece que você lê meus pensamentos”. Não raro, eles levam textos de seus autores preferidos para as consultas com o analista, a fim de que aqueles escritos ajudem a elaborar sua própria narrativa.
Meus pensamentos também são provocados por diversos outros escritores, e ainda por músicos, jornalistas, cineastas. Esse intercâmbio de palavras e sentimentos ajuda de maneira significativa na nossa própria narração interna. Escutando o outro, lendo o outro, se emocionando com o outro, vamos escrevendo vários capítulos da nossa própria história e tornando-nos cada vez mais íntimos do personagem principal – você sabe quem.
Selton Mello, em entrevista, disse que para algumas pessoas o programa pode parecer chato, pois é todo baseado no diálogo entre terapeuta e paciente, e isso é algo incomum na televisão, que vive de muita ação e gritaria. De minha parte, terá audiência cativa até o último episódio, pois, mesmo não vivenciando os problemas específicos que a série apresenta, todos nós aprendemos com os dramas que acontecem na porta ao lado, é um bem-vindo convite a valorizar o humano que há em cada um. A introspecção não costuma atingir muitos pontos no ibope, mas é a partir dela que se constrói uma vida que merece ser contada.”
Texto de Martha Medeiros escrito em 07 de outubro de 2012 para a Revista O Globo,  coluna Ela Disse. oglobo.globo.com

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

10 maneiras de inibir o desenvolvimento do seu filho

Você não pode deixar de ler.


Se o elefante soubesse a força que tem, seria o dono do circo, afirma o dito popular. Costumo dizer que filhos são diferentes, eles, em algum momento, descobrem a sua força. Alguns se tornam donos do circo familiar, outros, mais competentes, fundam o seu próprio. Isso é um perigo, devemos inibir estes arroubos de autonomia e independência. Os primeiros sinais deste distúrbio ocorrem quando facilmente eles conseguem dormir na casa dos avós, tias e amiguinhos sem maiores problemas. A reação no primeiro dia de escola é outro indicador importante, quando dão tchau e não olham mais para trás, geralmente é porque atingiram um perigoso grau de autonomia.
Descreverei algumas medidas úteis para inibir o desenvolvimento e a conquista de autonomia dos filhos e assim mantendo-os permanentemente dependentes.
  1. Compare-os, compare-os sempre. Com os irmãos, com os primos, com os vizinhos. Assim inibe-se que eles olhem para os seus interesses e suas habilidades. De preferência apontando habilidades que os outros têm e eles não. Compare seu filho introspectivo e estudioso com o primo desinibido e atlético. A filha gordinha com a amiga magrela.
  2. Quando ele mostrar-se contente com uma conquista, mostre o elemento faltante. Se ele tirou 9,5, pergunte se alguém tirou 10, ou o que faltou para tirar 10, já que ele só faz isso. Se ele se saiu muito bem em português, pergunte sobre a nota de matemática, sempre acentuando a importância da disciplina que ele tirou a menor nota.
  3. Mostre-se extremamente disponível para ajuda-lo, de preferência faça as coisas por ele, se resultado for bom, acentue que isso ocorreu porque você ajudou-o, se não for bem, mostre o quão relapso ele foi, tendo deixado para fazer na última hora.
  4. Fale dos perigos da vida, utilize todos os exemplos trágicos e associe o desfecho a algum tipo de desobediência/desconsideração com os pais.
  5. Inocule culpa, esta é uma arma poderosa. Fale dos sacrifícios para dar o que ele pede, comente que você nunca teve nada disso e sempre foi obediente. Enquanto ele parece não dar importância ao que lhe é orientado. Em caso de urgência, evoque o mandamento bíblico: “respeite o teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na face da terra”. Isso mobiliza temores atávicos.
  6. Na puberdade\adolescência moralize qualquer indício de desinibição sexual, por outro lado, se te parecer que o comportamento está muito inibido cobre desempenho. Aqui a comparação também é fundamental.
  7.  A escolha profissional é um momento importante. Se a escolha não recair sobre algo clássico, seja direto: vais morrer de fome. Alguns pais que são médicos ou das carreiras jurídicas tendem a inatamente terem a habilidade de mostrar o quão perigoso é uma escolha que não recaía sobre a segurança das suas áreas. Mostre tudo que eles perderão abrindo mão da influência dos pais.
  8. Tente sempre utilizar a sua influência para viabilizar as conquistas dos filhos. De forma que fique claro, que o emprego ele conquistou por pedido do pai, a nomeação foi por influência do amigo etc. Se no caminho tiver algo de ilícito, melhor, esse fato acompanhará o filho sempre, nada mais inibidor de autonomia.
  9. Se perceberes que o filho esta prestes a conquistar algo que almeja, como, por exemplo, a compra de um bem, se puderes, antecipe-se e dê para ele, se não puder dar tudo, contribua de alguma forma, assim ele não ganha a autoconfiança de achar que pode conquistar as suas coisas.
  10. Sempre o previna sobre tudo que pode não dar certo, é infalível, como sempre algo não dará certo, lembre-o que você avisou. Em qualquer idade, avise que se ele fizer algo que tu não aprovas que ele não conte contigo.
Todas estas orientações podem ser usadas com cônjuges, afilhados políticos, pupilos acadêmicos, funcionários, precisa-se apenas de pequenas adaptações.
Brincadeira à parte, todos os pais, em algum momento podem ter alguma atitude listada, eu já me vi em quase todas, de maneira mais ou menos sútil. É o aspecto repetitivo e constante que acaba por contribuir para inibição e dependência dos filhos. Todos os pais têm seus núcleos de dependência e, assim, podem atuá-los de forma inconsciente. Seja porque eles têm medo da autonomia, seja por rivalidade com os filhos ou porque as suas dependências se manifestam através da necessidade de terem alguém dependente deles.

Abraços,
Marcela